L'Eau d'Issey pour Homme Vetiver: surpresa revigorante
Uma fragrância que rompe com a monotonia das tendências e se destaca pelo frescor e elegância
Assim que fui morar no Rio de Janeiro, na década de 1990, tive, a partir de uma expressão bastante bairrista, o que, talvez, seja um dos grandes ensinamentos da minha vida: “o melhor de Niterói é a vista do Rio”. Não, não estou corroborando bairrismos nem incentivando rixa entre cidades – embora, convenhamos, a vista da Baía de Guanabara, a partir do Parque da Cidade de Niterói, é uma das paisagens mais lindas do mundo!
Qual o aprendizado disso? Bem, morando no Rio de Janeiro, na Rua Paula Freitas, em Copacabana, eu tinha uma cidade belíssima, mas eu era cegado pelos altos prédios nas ruas estreitas da vizinhança. Eu não tinha uma visão ampla do Rio, eu não via o Rio por inteiro, via apenas “cortes”; para usar uma expressão contemporânea.
Mas o que isso tem a ver com perfumes, ou, mais precisamente, com o L’Eau d’Issey pour Homme Vetiver, de Issey Miyake, foco do texto de hoje?
Bem, excluindo a controvérsia “fixação e projeção”, provavelmente, perfumes “mais do mesmo” sejam uma das mais frequentes, senão a mais frequente reclamação dos consumidores de fragrâncias. O que acontece, acredito, é que na maioria das vezes essas pessoas estão vivendo na “Copacabana dos perfumes”, ofuscadas pelos lançamentos que seguem a atual tendência de mercado – no caso, as baunilhas, ou os novos gourmands, menos doces.
Criando um paralelo, posso dizer que “a melhor vista da Copacabana dos perfumes é a panorâmica feita a partir de Niterói”! É necessário afastar-se do burburinho dos lançamentos hypados, escapar da cegueira imposta pelas indicações dos algoritmos e, de longe, contemplar o que existe além de tudo isso que nos é imposto de alguma forma.
Foi assim que conheci L’Eau d’Issey pour Homme Vetiver, lançado em 2023, e que surpresa incrível! Tão distante do “mais do mesmo” das fragrâncias hypadas, sempre aquecidas por baunilhas, âmbares, especiarias quentes e, por vezes, com “notas solares” – detesto essa expressão, mas essa é outra história.
Amadeirado aromático, L’Eau d’Issey pour Homme Vetiver é uma fragrância que, em pouquíssimo tempo, se tornou uma das minhas preferidas. É elegante, educada, tem personalidade, sabe se impor sem precisar gritar, ou sufocar ninguém.
A presença do gengibre faz toda a diferença na composição porque ele une os aspectos frescos e revigorantes da abertura da fragrância, que me remete a algum tipo de água aromatizada com cítricos e as madeiras transparentes da base. Para além do próprio vetiver, que dá nome à fragrância, há um cedro absurdamente limpo, com uma pegada intensa de ISO E Super e um toque, sutil, de sândalo – que ainda que não seja, exatamente, uma madeira “transparente”, por conta de sua cremosidade, aqui me soa como um sândalo verde, com um toque fresco.
Frescor, inclusive, bastante presente no corpo aromático, revigorante, também em tons de verde. Existem tímidas, porém perceptíveis nuances florais, como se gerânios e rosas estivessem brincando de pique-esconde. Além disso, sálvia e o que me parecem sementes de coentro também se divertem, discretamente. Há ainda algo como uma bruma leve de aldeídos, conferindo um toque metálico suave, requintado.
De modo geral, a dupla gengibre e vetiver funcionam como uma espécie de Ponte Rio-Niterói, e percorrem juntos, por meio de semelhanças e contrastes, quase toda a evolução de L’Eau d’Issey pour Homme Vetiver. O gengibre, fresco e picante, em algum momento flerta com um subtom mais quente, amadeirado até, e levemente balsâmico. Da mesma forma, o vetiver do Haiti, variedade que também apresenta uma picância sutil, sugerindo algum frescor, ainda apresenta uma tonalidade de noz e um sopro defumado.
Se, assim como eu, você não acredita no mito do “mais do mesmo” e busca observar lançamentos e novidades com o distanciamento de quem está do outro lado da ponte, é possível que – gostando de fragrâncias com caminho olfativo amadeirado aromático e sendo fã de vetiver – você vá admirar L’Eau d’Issey pour Homme Vetiver.


