O desafio da proteção solar e a busca por alternativas para ampliar sua disponibilidade
O preço elevado dos protetores solares ainda impede que mais pessoas tenham acesso a esse cuidado essencial para a saúde da pele
No início deste ano, minha família viveu um momento de grande apreensão: meu irmão passou por uma suspeita de câncer de pele. Felizmente, a biópsia descartou a doença, mas o episódio foi um alerta importante sobre a necessidade da proteção solar. Esse cuidado é essencial, especialmente no Brasil, onde a incidência de câncer de pele é alta e a exposição solar intensa faz parte do cotidiano. No entanto, ao dar início as minhas pequisas sobre o tema, me deparei com uma questão preocupante: a proteção solar está longe de ser acessível para todos, e essa realidade precisa ser discutida de forma ampla, envolvendo tanto a indústria quanto a sociedade.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de pele não melanoma é o tipo mais comum da doença no Brasil, e a prevenção mais eficaz é o uso regular de protetor solar. O problema é que, para muitas pessoas, esse produto ainda é um item de luxo. O preço elevado representa um obstáculo significativo para o uso contínuo e adequado, comprometendo sua função como ferramenta de prevenção. Ainda que as marcas possam justificar esse custo pelo alto investimento em pesquisa e tecnologia, a realidade é que a proteção solar deveria ser um direito básico de saúde e não apenas uma opção para quem pode pagar.
Essa situação se agrava com práticas como a "reduflação" — a diminuição da quantidade de produto na embalagem sem uma redução proporcional do preço —, que torna o custo por mililitro ainda mais elevado. O consumidor, muitas vezes, não percebe essa mudança de imediato, mas, a longo prazo, sente no bolso o impacto desse reajuste disfarçado. Esse tipo de estratégia levanta uma questão importante: é possível conciliar inovação e rentabilidade com um compromisso mais amplo de acessibilidade?
O mercado cosmético tem avançado significativamente em questões éticas, como a adoção do selo "cruelty free", garantindo que seus produtos não sejam testados em animais. Essa é uma iniciativa essencial e louvável, mas pouco se fala sobre Responsabilidade Social quando o assunto é tornar os protetores solares mais acessíveis. Se a proteção solar é um fator determinante na prevenção do câncer de pele, talvez seja o momento de discutirmos soluções concretas para ampliar o acesso a esses produtos.
Existem caminhos possíveis. Parcerias entre marcas e setor público poderiam viabilizar programas de distribuição gratuita ou subsidiada para comunidades de baixa renda. Iniciativas semelhantes já acontecem em outras áreas da saúde, como a distribuição de preservativos e absorventes pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, um incentivo fiscal para empresas que desenvolvem linhas de protetores solares acessíveis poderia estimular a indústria a buscar alternativas viáveis e sustentáveis. Outra possibilidade seria a criação de um selo que reconheça empresas comprometidas com essa causa, incentivando a transparência e o compromisso com a democratização do acesso ao produto.
A popularização dos protetores solares como itens de skincare também influencia como enxergamos esses produtos. Muitas vezes, eles são associados à estética, à beleza, quando, na verdade, seu uso deveria ser entendido como um cuidado essencial de saúde. Garantir que mais pessoas tenham acesso a esse cuidado básico é uma responsabilidade que precisa ser compartilhada entre indústria, governo e sociedade; já que o câncer de pele pode atingir qualquer pessoa, independentemente de classe social.
As marcas têm demonstrado avanços notáveis em pesquisa e desenvolvimento, e isso é fundamental para oferecer produtos cada vez mais eficazes. Mas o compromisso com a saúde também passa pela acessibilidade. Democratizar a proteção solar é uma oportunidade para que a indústria cosmética amplie seu impacto positivo, indo além do marketing e assumindo um papel mais ativo na construção de um futuro onde esse cuidado essencial esteja ao alcance de todos.
A discussão está aberta e precisa crescer. Cabe às empresas, a nós, consumidores, e aos órgãos reguladores trabalharem juntos para transformar a proteção solar em um direito acessível, não em um privilégio restrito a poucos.


