Onde o perfume encontra a música
Na Pure Sense, perfumistas cegos, como Alexander Yashin, criam composições únicas e emocionais
Cego de nascimento, Alexander Yashin, o perfumista russo de 31 anos enxerga apenas luzes e sombras. Sentado em seu banco de trabalho no laboratório da perfumaria moscovita onde atua, ele sorri com intensidade ao inalar profundamente uma nova amostra. É nesse instante que a composição começa a se formar — não com partituras, mas com acordes aromáticos.
Yashin integra a equipe criativa da Pure Sense, marca russa de fragrâncias conhecida por reunir perfumistas com deficiência visual. Dos quatro profissionais que assinam as criações da casa, dois também são cegos. A fundadora, Ekaterina Zinchenko, queria mais do que inovação olfativa: buscava um espaço genuinamente inclusivo, onde o talento fosse o ponto de partida. “Inclusão é permitir que cada um faça aquilo em que é bom”, resume ela, aos 29 anos.
No laboratório, dezenas de frascos brancos com óleos essenciais e elixires ocupam as prateleiras como se fossem instrumentos afinados. Para Yashin, esse é o seu “órgão de perfumes”. A analogia com a música é inevitável: “A perfumaria é como uma sinfonia — temos as notas, que são os elementos isolados, e os acordes, que surgem quando essas notas se combinam. A fragrância final é a composição completa”, explica.
Com os sentidos do olfato e da audição especialmente aguçados, Yashin — que também é filólogo e etnógrafo — traduz vivências sonoras em obras perfumadas. Durante anos, fez parte de um grupo itinerante de música folclórica, e essas memórias agora ressurgem em forma de aroma. “A perfumaria, como qualquer arte ou ofício, é algo que se aprende pela vida toda”, diz ele.
Enquanto a marca Pure Sense se prepara para expandir sua presença internacional, Zinchenko celebra a diversidade criativa de sua equipe. “O que mais me encanta, como empreendedora, é perceber que cada perfumista tem seu próprio estilo, sua assinatura”, afirma. “Consigo adivinhar de quem é cada criação só pelo cheiro, sem precisar olhar o rótulo.”


